União com o Kōmeitō acelera desgaste do Rikken e pode custar metade das cadeiras

Eleitores independentes começaram a se afastar silenciosamente, e até militantes engajados passaram a demonstrar frustração. As causas que defendiam foram trocadas por votos organizados, esfriando o entusiasmo de quem sustentava o partido nas ruas.

As pesquisas de opinião sobre a atual eleição para a Câmara dos Deputados indicam ampla vantagem do Partido Liberal Democrata, enquanto análises apontam que o bloco de centro pode perder mais da metade de suas cadeiras. Diante desse cenário, surge a pergunta: afinal, foi mesmo uma boa decisão o Partido Democrático Constitucional (Rikken) ter se aliado ao Kōmeitō?


Para Kenichi Ogura, ex-editor-chefe da revista econômica President e escritor, a resposta passa por um ponto central: ao se unir ao Kōmeitō, o Rikken acabou expondo, de forma clara para o eleitorado, a fragilidade e a inconsistência de muitas de suas próprias políticas.


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A recém-criada “Aliança de Reforma do Centro”, formada em janeiro, divulgou sua lista de candidatos à representação proporcional. Os primeiros nomes da lista são todos ex-integrantes do Kōmeitō, com um número de vagas praticamente idêntico ao que o partido havia conquistado na eleição anterior. Para muitos apoiadores históricos do Rikken, isso simbolizou uma humilhação: depois de anos defendendo bandeiras como “fim da energia nuclear” e oposição às leis de segurança, o partido abandonou seus slogans para salvar políticos do antigo adversário.


Sob uma análise menos emocional, porém, o movimento revela um cálculo político frio. O Rikken estava acuado: se disputasse a eleição sozinho, corria o risco de perder votos para outras legendas e ser derrotado em diversos distritos uninominais por falta de base eleitoral sólida. O que mais desejava eram os votos organizados do Kōmeitō, capazes de garantir vitórias apertadas.


O Kōmeitō, por sua vez, também enfrentava um cenário crítico. Com o enfraquecimento da cooperação com o PLD, havia o risco de perder todos os seus assentos em distritos uninominais. A sobrevivência passava, portanto, pela garantia de cadeiras na votação proporcional — algo possível apenas com a aliança.


Na prática, a fusão foi uma espécie de “sociedade de sobrevivência”: o Rikken queria vencer nos distritos, o Kōmeitō precisava se manter vivo na proporcional. A ciência política explica esse fenômeno como uma combinação de “medo” e “seguro”, conceito descrito em estudos internacionais sobre fusões partidárias: diante da incerteza eleitoral, partidos aceitam custos imediatos para evitar um colapso futuro.


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O cálculo parecia perfeito, mas teve um efeito colateral grave. Ao se alinhar a um partido mais pragmático, acostumado a governar e a lidar com limites orçamentários e de segurança nacional, o Rikken viu suas próprias propostas parecerem vagas e irrealistas. A comparação direta fez cair a máscara de um discurso que, para muitos eleitores, soava mais ideológico do que viável.


O exemplo mais simbólico foi a energia nuclear. Enquanto o Kōmeitō admite a retomada gradual das usinas por razões econômicas e de segurança energética, o Rikken abandonou rapidamente o discurso do “nuclear zero” para viabilizar a aliança. Para parte do eleitorado, isso mostrou que a bandeira nunca foi, de fato, inegociável.


Com isso, eleitores independentes começaram a se afastar silenciosamente, e até militantes engajados passaram a demonstrar frustração. As causas que defendiam foram trocadas por votos organizados, esfriando o entusiasmo de quem sustentava o partido nas ruas.


Ainda assim, Ogura sustenta que a aliança foi, no fim das contas, positiva — não para o Rikken, mas para a política japonesa. A fusão funcionaria como um “remédio amargo” que destrói ilusões antigas e acelera uma reorganização do campo oposicionista. Se a aliança fracassar e se desfizer após uma derrota eleitoral, isso poderia abrir espaço para que partidos com propostas mais realistas, como o Partido Democrático do Povo, assumam o protagonismo.


Nesse cenário, debates parlamentares deixariam de girar em torno de escândalos intermináveis e passariam a focar em temas concretos da vida cotidiana, como economia, reformas institucionais e segurança. Para o autor, a união entre Rikken e Kōmeitō poderá ser lembrada no futuro como um grande “autoatentado político”, mas um que ajudou a encerrar um ciclo de oposição baseada mais em slogans do que em governabilidade.


Fonte: Yahoo Japan
Foto: Reprodução

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