Filhos de imigrantes no Japão enfrentam pressão para “se tornarem totalmente japoneses”, apontam especialistas
Crianças de origem imigrante fazem parte da sociedade japonesa, mas enfrentam desafios específicos de adaptação e identidade. A professora Natsuko Minamino, da Universidade Toyo e autora do livro Manual de apoio a crianças e famílias com raízes estrangeiras a partir da compreensão multicultural, explica que os problemas enfrentados por essas crianças diferem daqueles vividos por adultos que chegam ao país.
Segundo ela, a sociedade japonesa ainda não valoriza a diversidade como critério positivo. Ter múltiplas culturas ou línguas raramente é visto como vantagem, o que faz com que muitas crianças de origem estrangeira comecem suas vidas escolares já em posição desfavorável. Para serem bem avaliadas socialmente, espera-se que se adaptem completamente ao padrão japonês, incluindo o idioma e os comportamentos.
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Essa pressão também se reflete dentro das famílias. Muitos pais imigrantes enfrentaram dificuldades de adaptação e discriminação, o que os leva a incentivar os filhos a se assimilarem totalmente à sociedade japonesa para evitar sofrimento semelhante. Ao mesmo tempo, dentro de casa continuam presentes elementos culturais do país de origem, como religião e hábitos alimentares, criando para as crianças uma sensação de mensagens contraditórias entre o ambiente familiar e a sociedade.
Outro fator apontado é a forte pressão social para não “se destacar” ou parecer diferente. Esse comportamento não afeta apenas crianças de origem estrangeira, mas também crianças japonesas. No entanto, para filhos de imigrantes a pressão pode ser ainda maior, pois além de se adaptar ao grupo, precisam lidar com diferenças culturais e de origem.
Mesmo quando conseguem falar japonês fluentemente, outras habilidades linguísticas muitas vezes não são valorizadas. Crianças que falam chinês ou vietnamita, por exemplo, raramente recebem reconhecimento por isso. Já o domínio do inglês costuma ser visto de forma mais positiva. Esse tipo de hierarquia cultural existente entre adultos acaba refletindo também no ambiente escolar.
A professora Minamino destaca que aprender o idioma do país onde se vive é importante para participar da sociedade. Porém, exigir que pessoas vindas de outros contextos abandonem completamente sua cultura e se ajustem totalmente aos padrões existentes é uma expectativa irreal.
Segundo ela, o desafio não se limita à imigração. O próprio modelo social japonês tende a ter dificuldades para incorporar diferentes perfis — seja de jovens, idosos, mulheres ou estrangeiros — o que dificulta mudanças estruturais. Isso cria um ambiente onde frequentemente surge a expectativa de que todos simplesmente “se tornem japoneses”.
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A pesquisadora também observa que o Japão atual é um ambiente socialmente difícil para muitas crianças. Filhos de imigrantes entram nesse mesmo sistema e acabam enfrentando desafios semelhantes, somados às questões culturais.
Embora seja comum explicar essas dificuldades apenas pela condição de estrangeiro, ela afirma que muitas delas estão relacionadas a características mais amplas da sociedade japonesa. Problemas como evasão escolar ou baixa autoestima entre jovens também aparecem entre crianças japonesas, indicando que o problema vai além da imigração em si.
Minamino argumenta que uma sociedade em que crianças de origem estrangeira consigam viver com dignidade seria também um ambiente melhor para todas as crianças, independentemente de origem ou cultura.
Ela alerta ainda que discursos políticos e sociais que enfatizam ideias como “Japão em primeiro lugar” podem não apenas dificultar a vida de imigrantes, mas também afetar o bem-estar das próprias crianças japonesas, reforçando sentimentos de exclusão e competição social.
Para a professora, observar a realidade das crianças de origem estrangeira ajuda a revelar desafios mais profundos da sociedade japonesa e convida todos a refletirem sobre como avaliar e aceitar o outro dentro da comunidade.
Fonte: Yahoo Japan
Foto: Reprodução

