A alta dos salários está tornando os trabalhos manuais (chamado de genba) cada vez mais atrativos no Japão. Em meio à falta de mão de obra e ao avanço da inteligência artificial, profissões ligadas à construção civil, transporte e serviços técnicos vêm atraindo trabalhadores que antes atuavam em empregos de escritório.
Especialistas afirmam que muitas dessas ocupações dependem de habilidades manuais, tomadas de decisão no local de trabalho e responsabilidade direta sobre a execução do serviço, características que ainda são difíceis de substituir pela inteligência artificial.
Construção civil amplia salários para atrair jovens
A escassez de trabalhadores qualificados levou empresas da construção civil a reverem suas políticas de contratação.
A Sekisui House Construction, por exemplo, aumentou em cerca de 30% o salário inicial de recém-formados do ensino médio e, nos últimos três anos, passou a contratar mais de 100 jovens por ano.
Segundo a empresa, alguns profissionais na faixa dos 30 anos já alcançam renda anual próxima de ¥9 milhões.
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Ex-vendedora dobrou a renda como motorista de táxi
A mudança também atrai profissionais que deixaram empregos administrativos.
Aos 27 anos, uma mulher trocou a carreira de representante comercial em uma empresa do setor atacadista pela profissão de taxista.
Ela afirma que, no emprego anterior, mesmo obtendo resultados superiores aos colegas mais experientes, recebia um salário menor devido ao sistema baseado em tempo na empresa, muito comum no Japão.
No setor de táxi, onde a remuneração depende principalmente da produtividade, sua renda mais que dobrou.
Segundo ela, nos melhores meses o salário bruto chegou a aproximadamente ¥600 mil.
O aumento do turismo internacional no Japão e a popularização dos aplicativos de chamada de táxi também impulsionaram a demanda por motoristas. Desde 2020, os salários do setor cresceram mais de 50%, segundo a reportagem.
Não apenas salários, mas a flexibilidade também pesa na decisão
Outro motorista entrevistado trabalhou durante 15 anos em uma empresa do setor funerário antes de mudar de profissão.
Além da remuneração, ele buscava mais autonomia para administrar a própria rotina e acompanhar os pais caso precisassem de cuidados médicos.
Hoje, trabalhando cerca de 12 dias por mês, afirma manter uma renda semelhante à do emprego anterior e ter muito mais tempo livre.
Instalador de ar-condicionado faturou ¥15 milhões em um ano
Entre os profissionais autônomos, os ganhos podem ser ainda maiores.
Um instalador de aparelhos de ar-condicionado, com cerca de nove anos de experiência, realiza sozinho todas as etapas do serviço, o que reduz custos e aumenta sua produtividade.
Durante o período de maior demanda no ano passado, ele chegou a faturar aproximadamente ¥4 milhões em apenas um mês. Após descontar as despesas, restaram cerca de ¥3 milhões.
Segundo o profissional, sua renda anual alcançou aproximadamente ¥15 milhões.
IA ainda enfrenta limitações nesse tipo de trabalho
Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que profissões que exigem habilidades físicas continuam sendo mais difíceis de automatizar.
Entre elas estão construção civil, instalação e manutenção, entregas, cozinha e reformas residenciais.
Segundo os especialistas, a inteligência artificial ainda enfrenta duas limitações importantes: a necessidade de executar tarefas físicas complexas e a responsabilidade humana exigida em atividades que envolvem decisões, contratos e atendimento ao cliente.
Ao mesmo tempo, eles ressaltam que isso não significa que os empregos de escritório desaparecerão, mas que o mercado tende a valorizar cada vez mais profissionais capazes de combinar conhecimento técnico com o uso da inteligência artificial.
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